quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Yury Grotz, o fantasma !

Yuri Grotz, era o Rei dos Salões da Moscou Czarista. Diz Andrey Polov no seu “Czarismo e outros mitos” que Grotz “adoeceu” de amor e como “fosse um ingênuo que somente conhecia do amor a dor e o prazer” tomou durante três dias todo um barril de bom vinho depois entrou dentro e pediu aos criados que pregassem a tampa. Queria morrer aos poucos, de fome “ou dor mais sofrida”, queria se transformar no primeiro fantasma da história.
Quase solenemente Grotz retirou a roupa se pôs dentro do barril levando consigo apenas um rolo de pergaminho antigo e uma caneta. Ninguém entendeu. O poeta que encantara os salões da Moscou antiga queria dar ainda seu último espetáculo e mandou aos mesmos empregados que pregaram a tampa com pregos de cobre fortíssimos que o colocassem em praça pública, enclausurado, tendo como único contato com o mundo exterior o pequeno buraco onde antes estava a torneira de vinho e que agora era seu respiradouro, tão pequeno que não se sabe se lhe era graça ou fardo. Talvez fosse melhor a Grotz morrer depressa, mas ele não quis.
Toda gente fez vigília na praça durante os primeiro dias. Incrédulos, chamavam por Grotz, ele não respondia. Levavam lamparinas e tentava iluminar o pequeno orifício na madeira e recuavam espantados quando, realmente, viam a pele de um homem lá dentro, como se esperassem ver outra coisa, tanto que no outro dia voltavam e iluminavam novamente, quase num ritual.
Grotz, Grotz... chamavam. Ele não respondia ! Com o tempo foi diminuindo a platéia até que somente visitava Grotz no seu barril um alferez do Czar cuja função era cheirar a abertura na madeira dando conta do dia em que de lá saísse o tão conhecido cheiro de carne podre. Então, Grotz estaria morto.
Todos os dias, entretanto, o odor que vinha da madeira era somente o odor do vinho que ainda impregnava todo o barril, lá dentro nenhum sinal de vida, era como se o corpo de Grotz estivesse embalsamado pelo espírito do vinho que emanava da madeira encharcada.
Certa noite uma mulher chorando sentou ao lado do barril. Aos poucos se abaixou quase rente ao chão e num esforço circundou com braços num quase abraço. Era como se uma viúva tentasse abraçar a lapide no afã de sentir e presença do finado. Naquele caso, entretanto, era o próprio corpo de Grotz, no seu casulo de madeira, que ela abraçava.
Em meio a soluços de dor ela perguntou: “Mas qual foi o meu pecado ?”
Quase imediatamente, da pequena fenda na madeira, sai um pedaço de papiro que cai no chão suavemente, mas não sem despertar na mulher um grande calafrio.
A mulher pega com pressa o papiro, olha para os lados, fecha o pedacinho de papel bem no centro da palma e corre pelas ruas em desespero.
A notícia se espalha e logo todas as outras mulheres da região estavam aos pés do barril fazendo perguntas e Grotz, agora transformado ele mesmo “no primeiro fantasma da história” respondia sempre com uma letra bem pequena em pequenos pedaços de papiro que saiam pelo buraco. Ninguém ousava mais nessa época iluminar a brecha e tentar ver que estranha criatura estaria ainda naquele momento escrevendo os papiros. Mas aos poucos na pequena cidade começou uma transformação. As igrejas começaram a ficar vazias, os homens acordavam mais tarde. Até mesmo os feirantes já não madrugavam e havia som saindo das casas pela noite como se fossem serenatas.
As mulheres andavam apressadas e diziam umas às outras cochichos sempre seguidos de sorrisos, os homens estufavam o peito ao sair de casa e havia contentamento, houve um surto de gravidez e isso tudo era sinal que se amava mais na cidade.
Em uma casa, entretanto, Grotz não fizeram o milagre, em uma casa apenas seu pequeno papiro não virara musica, poesia nem produzira rebentos em noites de sôfrega agonia de prazer. Numa casa apenas não existia choro de criança, nem lamparinas apressadas, não aumentou o consumo de vinho. Em uma casa apenas não se ouvia musica nas madrugadas.
Grtoz, se não havia morrido, morreu quando o próprio Czar, espantado com todas as transformações e pressionado pela Igreja, que via o interferência do demônio em cada sintoma, mandou jogar o barril com a sua carga surreal dentro do rio mas não sem antes ata-lo a inúmeras pedras e pesos que garantissem seu descanso no leito mais profundo.
Anos se passaram e a cidade permaneceu com a mesma alegria e, acreditem, índices de natalidade fora do comum. Seu povo jovem gostava de música, de andar pelos parques, as feira se tornaram vespertinas, as meninas cada dia mais lindas e seus homens mais amáveis, fieis e galantes. Por decreto foi criado o concurso de versos, o dia da poesia, o dia do descanso e o dia do amor. A grande catedral restou transformada em museu. Tudo havia mudado !
Só numa casa nada mudara. Só numa casa permanecia o silêncio, só numa casa o encantamento não se operou. Quando a sua velha moradora morreu amigos encontraram o seu corpo bem vestido deitado sobre a cama e dentro das mãos, cerradas, um pequeno papiro. Nele, com uma letra bem desenhada e arcaica, um pequeno poema:

Nenhum querer fará um folha seca deixar de cair ao chão no outono;
Nenhum querer impedirá o rio de encontrar a sua foz;
Querer algum irá parar o sol no seu caminho eterno pelo céu do mundo;
Animais, em desatino, copulam e nenhum querer os faz parar um instante
pra pensar na vida;
Nenhum querer impede a criança de virar maduro,
Impede o maduro de virar menino
nessa louca senda do destino;
Perante a torrente do amor não há um certo ou um errado.
Portanto o único pecado é não ter amado,
O único erro é não ter se deixado amar !

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