sexta-feira, 6 de abril de 2007

A Cidade e Uma de Suas Almas


Bem disse Bandeira Tribuzi, que "De pedras e azulejos / mirantes e becos, / sobrados e torres / faz-se uma cidade:/ ainda mais de alma.". Essa alma deixou resquícios do universo em que se formou, ainda sobreviventes em alguns homens e mulheres que encerram em suas mentes e corpos as marcas de épocas tanto reais quanto imaginárias. E uma das almas mais vibrantes que ainda emprestam vida aos muros da velha São Luís é a Dona Celeste Santos, da Casa das Minas. Trarei, através da fala de Dona Celeste, um pouco das suas interpretações sobre eventos relacionados à vida cotidiana das operárias das fábricas têxteis de São Luís, no caso, a Cânhamo, onde trabalhou:

- Que função exerceu lá? “Eu entrei no Cânhamo em janeiro de 1940. Fui tecelã, mas comecei na fiação. Entrei com a primeira turma de trabalho, logo depois que colocaram. Passei dois anos lá, todos os outros na tecelagem, até outubro de 1954. Naquele tempo, só os homens trabalhavam na fiação, mas consegui entrar no grupo dela, em 1942, como diarista, cumprindo tarefas. Para cada seção tinha um mestre. [...]. As máquinas eram todas inglesas, e com elas vieram junto os ingleses. No começo eles é que eram os chefes [das máquinas]. Depois, no tempo na Guerra, trouxeram um Polonês. Foram em Pernambuco, onde também tinha uma linharia, e contrataram o Seu Renato Bulcão. Essa família toda é de lá. Antes, quando não tinha a fiação, a linha era comprada fora. A fábrica só tecia. O fio chegava já pronto, na espula, tudo pronto. O problema é que podia acontecer dele atrasar, e aí o serviço parava.”. Como a senhora conseguiu o emprego na Cânhamo? Por que foi trabalhar lá? - “Minha mãe tinha adoecido, e tive que procurar emprego. Menor ganhava só a metade, mas era o jeito mesmo. [...]. Eu era mocinha. Precisava trabalhar para ajudar nas coisas de casa, mamãe não tinha condição. A fábrica chamava, botava aviso: ‘precisa-se de fiandeira, de tecelã’ [...]. A gente entrava e a fábrica providenciava os documentos, fazia as carteiras.”. - Por que a senhora saiu da fábrica? Aonde foi trabalhar? - “Eu saí do Cânhamo porque o trabalho de fábrica segurava a gente. Queria outra coisa. Em casa de família não deixavam a gente estudar. Por isso fui para o Rio de Janeiro. Lá já tinham muitos maranhenses [...], não queria trabalho de fábrica. Mesmo assim, passei um tempo na Fábrica Santo Antônio, em São Cristóvão. No Rio eu conheci a chefa daqui [Casa das Minas], Dona. Amélia Vieira Pinto.”. A senhora se recorda da festa de Santa Luzia, na fábrica? - “Sim, foi devido a uma promessa de uma antiga operária, Dona Domingas. Eu lembro dela, morava no Lira [...]. Nesse dia a fábrica dava ponto facultativo, e fazia missa. Depois tinha lanche, uma comemoração. Já era bem idosa. Um tempo 'Seu Maneco’ [Manoel Mathias das Neves Filho, o proprietário da fábrica] esteve doente dos olhos. Ela, preocupada, fez essa promessa pela cura. Depois que ficou bom, todos os anos tinha.”. A senhora sabe se Dona Domingas dançava [termo utilizado na entrevista para referencias à prática de culto afro-brasileiro]? “Não sei, isso eu não sei. Talvez, sim. A maior parte desse pessoal que dançava, trabalhava em fábrica. Ali na Casa de Nagô tinha uma senhora que tocava ferro e que também trabalhou na Cânhamo, inclusive morrendo lá. Ela ficava nas últimas máquinas, perto da parede, lá no finzinho. Tocou o apito, deu a saída, todos foram embora. Foi uma pena, ele teve derrame e caiu. Como era um pouco distante e foi naquela hora, ninguém deu conta dela. No dia seguinte foi que acharam.”. Dona Celeste, o que é esse “bater ferro” [no mesmo sentido, em referência aos cultos religiosos afro-brasileiros]? - “Ah! Isso é outra coisa [risos]. Não tem nada com fábrica não.”. A fábrica se preocupava com a religião de vocês? A senhora foi procurada por alguém de lá pelo fato de dançar? - “Claro que não. Não tinha nada a ver. Cada um levava sua vida como queria. Padrão não ia querer saber o que o empregado fazia fora da fábrica. Tinha só que trabalhar e já estava muito bom.”. A senhora sofreu algum acidente? Chegou a ver algum? - “Nunca me machuquei. Nunca tive nada. Mas agora eu lembro de um rapaz que teve o braço preso em uma máquina e tiveram que cortar. Uma moça perdeu três dedos da mão trocando os cilindros em movimento. Lembro só desses.”. E o salário, cobria as despesas de casa? - “O salário era esse que davam. Pagava as coisas, mas não tinha folga não.”.

3 comentários:

Gois Jr. - MatracaDigital disse...

Valeu Diogo, otimo post...

Gois Jr. - MatracaDigital disse...

Valeu Diogo, otimo post...

Masieli disse...

Brilhante em tudo o que faz!
Parabéns Diogo por resgatar histórias de um lugar tão lindo como o Ceprama.
Um grande Abraço.

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