domingo, 15 de abril de 2007

O MITO DO FUNDADOR


Escrever um texto mesmo que pequeno, e sem grandes pretensões, sobre a fundação da cidade de São Luís do Maranhão, parece ser uma redundância gramatical, um quase vício de linguagem. Impossível é fugir ao primeiro pensamento: “novamente? - o que ainda se poderá escrever sobre isso?” o leitor, ainda mais se Ludovicense, de certo se enfastiará de pronto; sem estímulo, cabisbaixo, procurará outra leitura, ou vídeo, mais interessante neste site. Afinal de contas, desde a mais tenra infância, sem chance alguma de escusar-se, o maranhense nascido em São Luís é arrebatado à Flor-de-Lis. Ele não é um brasileiro qualquer; sequer seja mesmo brasileiro. É, antes de tudo, um nobre gaulês. Está ligado por laços culturais à nobiliárquica França. Seja entre os majestosos castelos do Vale do Loure, nos espelhos de Versalhes, ou em frente à Torre Eiffel, a imaginária ludovicense vagueia. E tal estranho passeio, por vezes, inebria a mente; e como que após uma divertida noite de farra, vem uma tormentosa ressaca física e moral: um ou outro não quer mais nem ouvir falar em França, se bem que até o próximo fim de semana.
De forma mais ou menos semelhante, os escritores, letrados e cultos homens dessas plagas do Norte do Brasil tem se portado. Contrariando o antigo ditado, que os bons vinhos franceses não provocam ressaca, a referência, chão firme e seguro porto, da fundação francesa de São Luís parece ter cedido em alguma parte, e causado séria dor de cabeça. A última reedição do livro "A Fundação Francesa de São Luís e seus Mitos", da professora Maria de Lourdes Lauande Lacroix, tem causado grande turbulência no meio intelectual. A maior divulgação, e aceitação, por parte dos próprios ludovicenses, à proposição da não - fundação francesa, tem provocado espanto na casta que defendia a ligação umbilical da cidade com aquele país europeu.
A imagem de franceses aportando na Baía de São Marcos no século XVII causa um profundo impacto na mente de todos que vivem em São Luís. A questão principal, ou seja, a já citada fundação, permaneceu intacta por décadas, desde que foi propalada com vigor, em fins do século XIX e início do século XX; e durante todo o último século, repetida em festas cívicas e ou oficiais da cidade, nas escolas públicas, nos jornais, em propagandas e programas de televisão. E com tal poder de difusão, não poderia, a fundação francesa de São Luís, se restringir apenas à intelectualidade local. Antes o contrário: disseminou-se por todos os que por aqui habitam, até mesmo fora da capital. Qualquer cidadão, desprevenido, andando pela rua buscando resolver seus problemas, se indagado sobre o assunto, responderá clara, fiel e convictamente que a cidade em na qual reside possui uma origem francesa.
A pesquisa histórica, debruçada com afinco sobre o tema, apurou que não se poderia afirmar a existência de traços herdados, mesmos os mais remotos, pela população local, daqueles franceses que estiveram aqui no eclipsar dos Descobrimentos. O aparato que trouxeram, se cogitada tão difícil hipótese, pudesse ou se propusesse a constituir uma futura colônia francesa, exatamente onde hoje se localiza o centro político e administrativo do Maranhão, não foi capaz de concluir tal projeto, ou mesmo sequer este se iniciou; em sua maior parte, talvez, pela brevidade dos poucos anos daquela ocupação. Historiadores e sociólogos, e aqui citamos a tempo a obra "Imagens do Moderno em São Luís", da professora e socióloga Valdenira Barros, foram capazes de perceber que a fundação francesa de São Luís não seria possível no século XVII, mas sim no final do século XIX. Isso através de um processo assim denominado pelo Historiador Eric Hobsbawn de “invenção da tradição”, próximo a um resgate cultural, mas na verdade muito afastado desse, e significado concretamente na invenção cultural, ou invenção de uma cultura ou de identidade. Não nos é objeto aqui, tratar da veracidade, de uma ou outra teoria. Não estamos nos propondo a debater se São Luís foi fundada por franceses ou portugueses (ou ainda indígenas); queremos apenas e simplesmente tratar do tema enquanto matéria de conhecimento público, que causa dúvidas e questionamentos nas mais diversas camadas de nossa sociedade.
Percebermos que o mito não é o da fundação francesa em si; acreditamos que existe sim o mito da fundação, seja ela de quem for. Parece clara a opção de sermos nascidos em uma cidade fundada por um povo que tem sido posto, ao longo da história, como de vanguarda, moderno, elegante e encantador; e em partido contrário, há (estranhamente) o mito da fundação da cidade por portugueses que, tradicionalmente, são vistos como pedantes, atrasados, sem tino, e até mesmo néscios.
No entanto, o que nos parece mais perturbar em se tratando de mito fundador, seja o fato de que talvez a cidade tenha sido fundada nem por portugueses ou franceses, mas por um mestiço: Jerônimo de Albuquerque. De sangue misturado e comportamento dos menos polidos, esse filho de português com índia talvez seja o grande patriarca, representativo do nosso sangue e dos nossos costumes (estaria satisfeito com uma refeição diária de carne de cobra e farinha, um autêntico Carcará!) . Restringe-se, portanto, o mito a estas esferas. O leitor ludovicense pode até optar pela assertiva que desejar, e qualquer das respostas que escolher será a correta: a), b), c), d) ou e). Porém, se, ao acaso, houver mais uma outra assertiva? Algo do tipo N. R. A.?
Que tão grande angústia! Talvez nem tenha havido qualquer tipo de fundação. Não teríamos origem alguma, sequer mestiça. Mas a que serve uma origem? Tal qual um garoto enjeitadinho, que cresceu pensando ter um pai, mas que descobre que não era seu, e caminha, perdido e afoito, pelo mundo, à procura do verdadeiro genitor, a cidade de São Luís lança-se à busca de sua origem.
Sem formação em psicologia, não podemos afirmar com certeza, mas cogitamos ser indispensável a existência de uma origem; é necessidade do ser humano encontrar no passado um ancestral que lhe deu a vida. Se em determinados momentos, a cidade de São Luís, decadente e empoeirada, queria galgar um degrau a mais que fosse na difícil escalada da modernidade, encontrou na França e na fundação francesa o cajado propulsor. Em outros tempos, uma cidade grande e moderna (com suas graves contradições), o encontro se deu com o áureo século XIX, e tudo o quanto ele deixou: casarões e poemas gonçalvinos.
Podemos pensar que o mito fundador nem sequer exista, ao contrário do que é (ou não é) propalado em embates de imortais ou proposto nas linhas perecíveis deste artigo. A Professora Lurdinha, em palestra realizada na Academia Maranhense de Letras, em 2002, abordando o tema do livro, relatou que estivera em São Luís, há não muitos anos, uma repórter francesa, em visita a diversos lugares do mundo onde a França possuiu algum tipo de ligação, seja cultural, econômica ou outra qualquer. A repórter passou pelos principais pontos da cidade, falou com pessoas e não encontrou nenhum tipo de vestígio da cultura francesa que fosse anterior ao século XIX (quando o padrão estético europeu, principalmente francês, alcançou níveis globais); intrigada por tão grande propaganda de origem comum entre o maranhense e sua terra natal, e a virtual inexistência dessa ligação, a repórter dirigiu-se a uma escola pública de nome bem sugestivo: “Daniel de Latouche”; tão nobiliárquico padrão emprestado a tão nobre atividade, verdadeira homenagem do Maranhão àqueles que o fundaram. Deveria ser ali o lugar onde a aproximação cultural França - São Luís fosse mais forte. Perguntou então, a repórter, a um dos dedicados estudantes daquela instituição:
- repórter: “ você sabe quem foi Daniel de Latouche?”
- estudante: “claro que sim.”
- repórter: “quem foi?”
- estudante: “um rei.
Risível, mas catastrófico. Outro ainda respondeu ser aquele francês um padre. Infelizmente Daniel de Latouche não era rei nem era padre. Infelizmente, também, a pesquisa da repórter frustrou-se por conseguinte. Mas fica a pergunta: aqueles alunos sabiam que o citado francês estivera aqui por ocasião da fundação da cidade, mas porque então o desconheciam? Cogito que aqueles estudantes, bem como a maior parte da nossa população sabe, porque foi posta a pensar isso, que a cidade foi fundada por franceses, mas desconhecem completamente o que é um francês, sua terra e cultura. Essas pessoas certamente, como nós o fazemos, devem imaginar um ancestral fundador; talvez nenhum dos que mencionamos aqui. Talvez nem passem por São Luís, mas pelo interior do Estado, ou outros Estados, países, um lugar qualquer, real ou imaginário. Se tanto, onde estarão as cabeças que tem o seu fundador no século dezessete, nas praias de São Luís (que nem São Luís era)? Arriscamo-nos em responder: nas redações de jornal, nas universidades, nas academias, nos institutos, nas câmaras, assembléias, tribunais, palácios e repartições em geral. Deparamo-nos com muito mais perguntas que respostas. Origem ou Origens? Perece que o justo é desvincular-se do objeto único, num movimento que a física chama de MCU, ou Movimento Circular Uniforme; desvincular-se de um eixo para viajar em muitos outros. Tudo junto, origem e não- origem, quem sabe. Um poema dadaísta... o todo combinado ao nada. O fundador espalhado como areia, espécie de certidões de nascimento de São Luís aos milhares, todas diferentes entre si, incompreensíveis na unidade ou no conjunto, mas que existem, na individualidade cultural e simbólica de cada homem e mulher da cidade.

8 comentários:

DIOGO GUALHARDO NEVES disse...

Mais uma de minhas "monografias"...

GoisJr. disse...

éee mesmo, o texto tá grande, mas igualmente belo e consistente, é o que importa. Vc notou que eu texto tem haver com o meu posto logo abaixo ? Vc se inspirou no "mito do xiri" para escrever o mito do fundador foi ?

DIOGO GUALHARDO NEVES disse...

LOGICO QUE SIM, DEPOIS DE VER ESSA BANDEIRA DA FRANÇA EM LOCAL BEM APROPRIADO!!! RSS..

ABRAÇOS DR. GÓIS!

Andrea disse...

Brilhante texto! O tema fundaçao de Slz eh bastante polemico e, embora pareça de dificil soluçao, acredito q a saida depende do referencial adotado(p usar termo fisico como o autor fez). Quais criterios a serem preenchidos p dizer q um povo fundou uma cidade?? A influencia cultural? quem primeiro chegou? quem primeiro fincou a bandeira de seu pais?? Dependendo do parametro de fundaçao q se adote a resposta varia.
Dr. Diogo Parabens pela brilhante esplanaçao sobre o tema!

felipe disse...

Muito bom o artigo "Mito Fundador" escrito por Diogo Gualhardo Neves.Na verdade,foi fundada em 1612 a França equinocial;apenas, os franceses nao tiveram tempo de aqui ficar.somente depois da revolução francesa é que realmente puderam lançar pelo mundo suas influências culturais que atingiram a todos.Parabenizo oautor pelo artigo, que retrata nao apenas o mito,mas o mistério!

DIOGO GUALHARDO NEVES disse...

Exatamente. Não se trata aqui de discutir se foram ou não os franceses que fundaram a cidade. Pretendi apenas esboçar a idéia da necessidade de uma fundação, e de como isto se dá, e seu uso ideológico.
Para maior aprofundamento, consultar as obras citadas no texto.

Saudações,

Diogo.

Thayara Castelo Branco disse...

Diogo, parabéns pela iniciativa de expor esse tema tão importante sobre as origens da nossa cidade. O mito da fundação gaulesa ainda faz parte da ideologia dominante, por significar um orgulho da diferença do Maranhão e dos ludovicenses em relação às demais cidades brasileiras. Tive o privilégio de ser aluna da profa Lurdinha e fico muito feliz por vc resgatar e divulgar essa grande obra, que é um marco dos estudos acadêmicos de história.

Megan disse...

Diogo, obrigada por me ajudar no trabalho de história regional, foi muito bom além de me ajudar a entender mais sobre minha cultura. (:

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