quinta-feira, 24 de maio de 2007

Nos círculos do Inferno


Fim do século XIX. Os grandes referenciais aristocráticos oitocentistas maranhenses pareciam eclipsar-se rapidamente, inclusive os literários. A arrogância de uma sociedade em tudo fundada nos conceitos do escravismo colonial, impediam, inclusive em um paralelo tão firme quanto atroz do que ocorrêra com Sousândrade, mais uma vez o reconhecimento da imensa competência poética de um de seus pares: José Américo Augusto Olímpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho.

Contrastava ao imenso nome uma personalidade muito introspectiva, e vida reclusa. Todavia, não em quarto lúgubre, recolhido do mundo que o cercava. Antes percorrendo pela madrugada os botequeins da vervilhante Manaus, a "Paris dos Trópicos", que resplandecia sob os delírios da Belle Époque, para onde então Maranhão Sobrinho se transferira por volta de 1910, abrigando-se da provinciana terra que lhe emprestara sua própria graça. Era em suma provavelmente um alcoólatra, um desgraçado miserável - a julgar pelos relatos de seus poucos biógrafos, e como os grandes poetas tendem a ser - mas que legava em seus "Papeis velhos...roídos pela traça do Símbolo", para toda a universalidade as profundezas do espírito humano.


Enquanto os valores do positivismo material e evolucionista se infiltravam com grande aceitação no seio da burguesia republicana brasileira, alguns poucos buscavam no refúgio interior, no individualismo pleno, uma firme resposta aos axiomas da época. Buscava-se uma estética avessa à ordem, ou mesmo à possibilidade de ordem. Os objetos desapareciam das representações da linguagem escrita, e em seu lugar símbolos os substituiam. "Simbolismo" é o nome que se atribuiu à literatura que percorreu essa perspectiva.

Enquanto João da Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens são citados pela crítica como os exponeciais da Escola no país, senão seus únicos representantes, Maranhão Sobrinho compartilha com Kilkerry, Baudelaire, Stéphane Mallarmé, Camilo Pessanha, e mesmo Poe, além de outros malditos, sua arte pulsante, irônica, cínico-satânica e acima de tudo apaixonada. Tem ele dormitado em raras reedições e poucas reproduções, desconhecido do grande público. É minha contribuição para que isto não se preserve:

"Olhos de amor

Volve-me os olhos límpidos! que um raio,
vindo do sol dos teus olhares, canta
nos meus sonhos assim, como a garganta
de uma ave dentro do calor de Maio!

Há dos teus olhos sob os cílios, quanta
luz há nos céus em que te vendo, caio...
Vives em mim num límpido desmaio,
santa nos beijos e nos olhos santa!

Trazes no olhar, em milagrosos traços,
o rimance irial do meu passado
feito de beijos, lágrimas e abraços...

Volve-me os olhos de saudades cheios!
Brilha o meu sonho, em sonho, alcandorado
nas torres de marfim dos teus dois seios!"

"Rubro

Púrpura cor de Sírios! Cor da guerra,
das flâmulas sangrentas da batalha!
cor que enlouquece, que embriaga e aterra,
derramada na arena ou na muralha!

Cor de gritos! Clarim das cores! Serra
do Emocional que o espírito retalha!
Febéia cor da volúpia sobre a terra
derramada, que grita e que farfalha!

Cor do Sol-Posto! Cor do Inferno! Cor
dos punhais e das lanças, difundida
por toda a terra, como a Luz e o Amor...

...Régia cor dos seus lábios escarlates!
Suprema cor da Morte e cor da Vida
dás-me a visão de auroras e combates..."

"Na espiral do inferno

Quando em minh'alma os plátanos do Horto
dos Sonhos gemem, como um kirie, ao vento,
e os céus, lembrando as pálpebras de um morto,
dormem, na paz de um velho monumento

assírio, no deserto imenso, absorto
no lótus de ouro e azul do firmamento,
desço aos infernos do meu desconforto
nas asas triunfais do pensamento...

E, lá no fundo, entre os purpúreos gritos
de tantas esperanças condenadas
sinto os meus olhos náufragos, aflitos,

vendo, nas espirais do amor, tristonhos,
lábios em flor e frontes calcinadas
por tantos beijos e por tantos sonhos!"

"Interlunar

Entre nuvens cruéis de púrpura e gerânio,
rubro como, de sangue, um hoplita messênio
o Sol, vencido, desde o planalto de urânio
do ocaso, na mudez de um recolhido essênio...

Veloz como um corcel, voando num mito hircânio,
tremente, esvai-se a luz no leve oxigênio
da tarde, que me evoca os olhos de Stephanio
Mallarmé, sob a unção da tristeza e do gênio!

O ônix das sombras cresce ao trágico declínio
do dia que, a lembrar piratas no mar Jônio,
põe, no ocaso, clarões vermelhos de assassínio...

Vem a noite e, lembrando os Montes do Infortúnio,
vara o estranho solar da Morte e do Demônio
com as torres medievais as sombras do Interlúnio..."

(Papéis velhos...roídos pela traça do símbolo.Manaus. Ed. Valer. 1999)

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