segunda-feira, 9 de abril de 2007

OS MARANHENSES E AS LENTES DO SÉCULO XIX

Sem sombra de dúvida, a invenção de Louis Daguerre e Joseph Nicéphore Niepce caiu sobre a ocidentalidade com um impacto formidável. Nasciam pelo o "Daguerreótipo", a fotografia e os fotógrafos. Alterava-se profundamente nesse momento toda a história da iconografia humana, proporcionando que homens e mulheres, em locais e tempos diversos, pudessem divulgar, de forma relativamente fácil e rápida, suas imagens. Talvez o fato mais importante no contexto do domínio da fotografia, conscientemente ou não, foi a manipulação dos objetivos a serem alcançados pelo retrato. Profissionais de reconhecido domínio da estética, muitas vezes instruídos nos conceitos da pintura erudita, produziam aos seus clientes as imagens que estes desejavam ter de si mesmos.
É apenas imaginável a maravilha, o espanto e o encatamento que a fotografia produziu sobre as sociedades no século XIX. Imediatamente integrada ao sígno da modernidade, se difundiu por todo o globo, e no Brasil, encontrou na Família Real, e em especial na figura do Imperador Pedro II - reconhecido entusiasta dos grandes inventos científicos de sua época - um foco fundamental de sua propagação por todo o país. Gabinetes fotográficos se espalharam pela Côrte e pelas principais cidades das Províncias. Ao lado de grandes mestres na arte do retrato de pessoas e paisagens como Marc Ferrez, Insley Pacheco, Stahl e diversos outros, alguns profissionais ainda pouco reconhecidos e trabalhando em regiões já sem tanta importância econômica, também confecionaram páginas fundamentais do registro fotografico brasileiro.
É o caso de Gaudêncio Cunha e João Luís Cerqueira em São Luís. Os maranhenses, estivessem ou não em sua terra, também fizeram largo uso da imagem fotográfica, especialmente no registro individual e familiar. Se bem que nos dias atuais essas imagens sejam raríssimas - haja vista o desprezo com que tais objetos são tratados -, alguns poucos exemplares ainda ilustram tanto o aspecto físico quanto parte dos sentimentos e idéias daqueles que viveram no Maranhão oitocentista. As 3 imagens aqui reproduzidas são exemplo disto. Ao menos 2, comprovadamente, foram elaboradas fora da antiga Província.


A 1ª cuida de uma mulher em pose descontraída e confortável. Apesar da falta de identificação, provavelmente pertenceu à família Jansen Pereira. Esboça um quase desapercebido sorriso, mas não esconde sua alta posição social: a ostentação está presente no vestido impecável, no elaborado penteado e principalmente nas jóias: os brincos e o pequeno relógio de algibeira, possivelmente de ouro e brilhantes, atado logo abaixo do busto. A foto foi tirada no Rio de Janeiro, no gabinete de "M. Garcia Photographo", localizado na Rua Sete de Setembro, nº 76. A julgar pela indumentária, a imagem deve ser anterior à década de 1870. Certamente foi enviada ao Maranhão como lembrança aos familiares. Poderia estar a mulher em simples viagem ou tratamento de saúde. De qualquer forma, o traslado até a capital do Império, mesmo nos paquetes mais velozes, não seria menor que 1 mês. Como atestado do uso da fotografia enquanto objeto de comunicação entre entes muito distantes fisicamente, mas de próximos e estreitos laços afetivos, estão as 2 outras imagens.


A 2ª, um sereno jovem de mais ou menos 30 anos lança seu olhar diretamente sobre a lente. Parece querer ver quem deseja. O verso da foto o revela, é por seu pai que está ali: "Ao Coronel Isydoro Jansen Pereira offerece em signal de amisade de seu filho Brunno Jansen Pereira. Maranhão, 14 de Agosto de 1862".

A 3ª imagem é das mais intrigantes. Trate-se também de um jovem, talvez com 20 anos de idade ou menos, extremamente bem vestido, portando luvas e cartola. A foto foi produzida no gabinete "Vail", Main Street, nº 254, em Poughkeepsie, New York. As características físicas do jovem parecem familiares. E são. É um mestiço - como seria definido nos conceitos de raça vigentes na época - um típico brasileiro. E mais que um brasileiro, um maranhense! Escreve no verso da foto: "Remmebrance from Lulu to Anicota. 6 III 1880. Maranhão Brazil". Quem seria esse incognito maranhense? O que estaria a fazer nos EUA do século XIX (lembrando que naquele período a Inglaterra é que exercia a hegemonia econômica e cultural do mundo)?Teria depois retornado ao Maranhão? Passou sua vida no exterior?


Tais indagações mostram que a história da fotografia ainda tem muitos e interessantes caminhos a trilhar, e uma gigante contribuição para o estudo do século XIX e da contemporaneidade.

4 comentários:

andrea disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
andrea disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
andrea disse...

A fotografia revela muito de uma epoca realmente e resta pra posterioridade como uma importante fonte historica! A maneira de vestir (tendencias da moda), a maneira de pentear... tudo revela uma epoca! Ao comparar-mos as fotografias do sec proposto pelo autor com as contemporaneas, verificamos a gradativa popularizaçao da fotografia... O q antes era sinonimo de pomposidade hj esta em tds as camadas da sociedade. As fts do sec proposto mostram a formalidade, o luxo de uma camada, as contemporaneas por sua vez, mostram a realidade tal qual ela se apresenta, desprovidas de qlqr formalidade, as vezes, revelam ate mesmo as mazelas (e malezas, referencia especial ao autor,kkk) de nosso tempo! Fotografias sao fontes historicas de indubitavel importancia!
Mais uma vez... Parabens Dr Diogo pela perfeiçao do texto!

DIOGO GUALHARDO NEVES disse...

"Formalidade" parece ser a regra da moda e de todas as expressões públicas do ocidente no século XIX. Mas a beleza formal dos modos de vestir raramente combinava com outro requisito, muito valorizado na contemporaneidade: o conforto. O espartilho era particularmente desconfortável, mas indispensável às jovens da época.

sobre isto, consultar: O ESPÍRITO DAS ROUPAS - A MODA NO SÉCULO DEZENOVE. SOUZA, GILDA DE MELLO E. COMPANHIA DAS LETRAS, 2001.

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